quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

C'EST LA VIE... - por Harold T. Butcher

Esse é um vale a pena reler de um puta dum texto fóda pra carai escrito por um antigo postador do blog... quem sabe um dia ele volte a postar ^^



EPISÓDIO I – UM ESTRANHO CONHECIDO

-Boa tarde!
Todos da repartição pararam de fazer o que estavam fazendo após ouvirem a saudação. Olharam-se como se estivessem surpresos, e logo após voltaram-se para a direção daquela figura grisalha que adentrava a sala segurando uma maleta em uma mão e um cigarro aceso na outra.
O sujeito tragou o cigarro, deixou a fumaça invadir seus pulmões e, como na imagem que nos vem na cabeça de um dragão, soltou a fumaça lentamente pelas ventas:
-Boa tarde!
Silêncio quase absoluto... Só era possível ouvir o som da fotocopiadora a trabalhar nas impressões do relatório, que poderia render ao seu autor um lugar mais distante da porta do banheiro. Se não fosse pelo suor que escorria pela testa da estagiária, que até então tomava nota do memorando ditado pelo supervisor do setor, era possível acreditar que o tempo havia parado.
Deu dois passos à frente e jogou o cigarro no copo de café do novato, chamado Gio, que estava sentado no lugar que ocupou durante os dois últimos anos.
-Ei! O meu café seu filho da puta! Você tá ficando louco cara?
Gio sentiu-se humilhado, seus olhos encheram-se de lágrimas e seus dentes cerrados rangiam. Pegou o copo de café, onde boiava uma bituca de Marlboro, levantou-se e derramou vagarosamente todo o líquido quase fervente, na camisa daquele senhor que o parecia estranho.
Os dois frente a frente se encararam. Os olhos nos olhos remetiam a pitbulls momentos antes da rinha.
Ouvia-se o murmurinho das pessoas da repartição, que balançavam suas cabeças em sinal de negativa. Naquele momento, a vermelhidão do crepúsculo adentrou na sala através da janela, e macabramente refletiu na face envelhecida, que esboçava um sorriso cínico e um olhar enigmático.
A tensão aumentou no instante em que a mão do senhor se dirigiu à parte interna de seu paletó. O garoto Gio assustou-se instantaneamente com aquele movimento. Seus olhos já não tinham mais o mesmo ódio de alguns segundos atrás, aquele sentimento deu lugar a outro, menos nobre: o medo. Afastou-se lentamente, chacoalhando suas mãos com as palmas voltadas para aquele senhor, como estivesse se rendendo.
Uma terceira pessoa se pôs a frente do garoto inconseqüente:
-Javier, deixe isso pra lá! Ele é apenas um garoto e... Não tem culpa de...
-Culpa de que? O que você acha que sabe, Kelly?
-Nada Javier... É que... Eu pensei que poderíamos...
-Cale-se.
Javier tirou um lenço do bolso interno de seu paletó, esfregou contra a mancha de café de sua camisa, e disse:
-Boa tarde!
Silêncio.
A porta é aberta novamente. Um vigilante com uma pistola em punho aparece. Todos, em pânico se abaixaram, exceto Javier, senhorita Kelly, o novato Gio e o supervisor, que havia reportado a invasão do estranho. Com cara de assustado, o supervisor ordenou:
-Faça alguma coisa! Leve o Javier imediatamente para fora!
Para o total estranhamento do supervisor, o vigilante abaixou a arma e guardou-a no coldre. Sinalizou balançando a cabeça, cumprimentando Javier.
-Não ouviu, seu imbecil? Chute Javier pra fora do nosso prédio!
Cabisbaixo, responde o vigilante:
-Desculpe senhor Biermaster, mas não posso fazer o que o senhor está pedindo!
-Seu insolente! Levarei este fato ao conhecimento do Presidente! Pode arrumar suas coisinhas... Considere-se um número nas estatísticas do desemprego!
Enfurecido, Javier caminhou até a mesa do senhor Biermaster, sentou-se à sua frente, olhou nos olhos do supervisor, que estava há exatos doze anos na empresa, e acreditava ser o próximo a ser promovido a diretor de análise de mercado. Tirou um cigarro da carteira.
-Tem fogo?
Biermaster apalpou seus bolsos rapidamente em busca do seu isqueiro. Sua mão trêmula o encontrou no bolso da sua camisa.
-Posso (acender)? – Ofereceu o supervisor.
Javier sinalizou positivamente com a cabeça.
Quando o supervisor estava chegando perto com a chama para acender o cigarro, Javier, com uma das mãos, agarrou o braço que estendia o isqueiro com a chama acesa e, com a outra, segurou o crachá pendurado no pescoço de Biermaster.
-Por Deus Javier! Não faça nenhuma besteira!
-Deus? Desde quando você acredita em Deus?
-Javier! Eu posso tentar reverter a sua situação. Estou influente com a Presidência...
-Ah! Não me diga! Quem você passou pra trás desta vez?
-Ninguém, são doze anos de dedicação...
Javier se irritou, apertou com força a fita que prendia o crachá, trazendo o rosto de Biermaster para mais perto da chama.
-Você está me enforcando!
-Você é quem está se enforcando, aliás, já está enforcado!
Javier soltou o crachá, e o velho deu um pulo para trás. Pegou o telefone e discou um número enquanto praguejava algumas palavras babando de raiva.
-Você ta fodido seu desgraçado! Vamos ver o que o presidente tem a dizer sobre isso... filho da puta!
Javier ria cinicamente ao mesmo tempo em que abria a sua maleta. Dentro dela um telefone sem fio tocava. Atendeu.
Biermaster espumando:
-Sr. Presidente?
-Pois não!
-Javier???
O velho, surpreso, emudeceu. Ainda com o telefone colado ao rosto, leu os lábios de Javier e simultaneamente ouviu pelo telefone:
-Você está despedido.