segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

ELE, ELA E CAROL - por Harold T. Butcher


-Onde você tá indo?
-Tô indo embora.
-Como assim? Por que?
-Não ta rolando mais nós dois...
-Não ta rolando? Só isso? Fácil assim?
-É... não é só isso... tem outra, eu não suporto mais o seu mal-humor.
-Meu mal-humor, meu mal-humor! Meu mal-humor? Uma ova! E você se acha a perfeição bateu e ficou em você, né? Mas é um cretino mesmo... e brocha.
-Por favor, sem ofensas... somos adultos e...
-Adultos um caralho, não me venha com essa não. Quem é a vagabunda? Quem é a vadia que você tá comendo.
-Tá louca? Um homem não pode ser homem uma vez na vida não?
-Homens sim, mas no seu caso estamos falando de ratos, porcos, cachorros ou... veados. Quer dizer então que você resolveu sair do armário... é um cara né? Sabia que você era gay...
-Ah meu Deus... agora essa. Cala essa sua boca se não te arrebento, sua puta. Sou homem, o mais homem pra quem você já deu.
-Ui, que meda da menina-flor! Vai lá, pega essa sua mala e vai pra casa do seu macho, bichona.
-Carolina...
-Agora deu pra mudar meu nome?
-Não, o nome dela é Carolina.
-A advogada? Não acredito, ela é casada, vou ligar agora pr’aquela biscate e vou...
-Não, a do sex shop.
-Bem sua cara mesmo, adora um pé-rapado.
-Assim como você.
-Nada a ver, você pelo menos fazia PUC.
-Cotista e favelado. Olha, cansei dessa sua arrogância e ar de superioridade...
-E o emprego na empresa do meu pai? Você já era... um telefonema meu e você é despedido no ato.
-Já me demiti hoje a tarde. Agora serei empresário do ramo de artesanato.
-(Risos cínicos). Como você é ridículo. Bem que minha mãe avisou que o homem pode um dia sair da favela, mas a favela não sai dele jamais...
-Tá certo... não vou mais te dar papo. To indo.
-Não vai! Só sai daqui por cima do meu cadáver.
-Sai da minha frente, por favor.
-Não, isso não acaba assim não... você me deve respeito, eu te tirei da merda seu ingrato. Cíntia chame os seguranças!
-Eu dispensei a Cíntia, não queria que ela participasse disso.
-É, você ama mesmo os pobres.
-É, amo. Agora sai da minha frente, não quero te machucar.
-Vamos conversar direito... não precisa ser assim...
-Não dá.
-Eu dou, vamos pro quarto, lá a gente sempre se acertou...
-Mas agora é diferente, to decidido a viver a vida de outra maneira, mais leve, realizar meus sonhos...
-E o uísque importado?
-Eu vou tomar, pinga, conhaque, cerveja... aquilo que a minha grana me permitir.
-Vai conseguir ficar longe do country club, das piscinas, da sauna...?
-Meu clube a partir de hoje é a praia, minha piscina é o mar e o calor do sol minha sauna.
-Tem certeza? E no inverno? O que você vai fazer? Vai acender uma fogueira dentro de um latão e ficar se aquecendo?
-É...eu...
-E sua massagem tailandesa? A fisioterapia pra sua lombalgia, como fica? E quando você ficar doente vai enfrentar a fila do postinho de saúde? Vai ser cliente do SUS?
-Olha, isso não importa agora...
-To vendo mesmo, que daqui dois meses você vai estar aqui na minha porta implorando pra voltar comigo. Por que não evitamos isso? Fica ai, vamos conversar melhor.
-Não dá!
-Já disse que eu dou sim... faço o que você quiser, hoje sou sua escrava. Larga a mala ai no chão e vamos lá pra dentro.
-A Carol ta me esperando lá em baixo, não posso fazer isso com ela.
-Pense bem... as festas? A chácara? O tênis? Você acha que sendo vendedor de artesanato você vai conseguir comer onde?
-...
-(tira a blusa e coloca a mão dele nos seus seios) Tem certeza? Ela é gostosa como eu? (passando a mão na virilha dele) Hein? Responde... ela fode como eu?
-Meu Deus... onde eu estava com a cabeça? Você tem razão... estava me deixando levar por impulsos.
-Interfone na portaria e dispense aquela baranga. E vem pro quarto.
-Aham. Coloca aquela lingerie vermelha que eu te dei de aniversário enquanto eu falo pro porteiro mandar a Carolina embora.
-Ok. Mas não demora. (Um beijinho no canto da boca)
-Com certeza não.
___

-E ai, por que demorou tanto? (um beijo na boca dele)
-Ah, tava complicado de desbaratinar a mocréia.
-E ai... Qual o rumo?
-Onde você quiser Carol... qualquer praia. Põe um Jefferson Airplane ai e abre a capota. Vamos deixar o vento bater em nossos rostos. Liberdade!
-(Carol dá a partida no carro e liga o som) Yeah! Então vamos pra onde a brisa nos levar.
___

Então ela vem como um projétil descendo do décimo sexto andar, voando, queda livre, fio dental, cinta-liga, cabelos esvoaçados e um sorriso irônico no rosto. A brisa guiou o foguete humano traído, seu alvo: o casal dentro do carro. Boom! Vôo certeiro, precisão militar, destruição e sangue... muito sangue. Silêncio.
A brisa os levou... ao menos suas cinzas dois dias depois. Ele foi jogado ao mar. Ela, por seu pai, de um helicóptero sobre Paris, sua cidade preferida. Carol, bom, não se sabe onde, os jornais não divulgaram a pedido ($) dos familiares da traída.