quinta-feira, 11 de junho de 2009

C'EST LA VIE... - por Harold T. Butcher

EPISÓDIO II – O desequilíbrio de Kelly

Já havia chegado a manhã e Kelly estava acordada há algum tempo. Ao som dos cantos matinais dos pássaros urbanos e dos carros que passavam pela movimentada rua onde ficava o seu prédio, revirava os armários da sua casa.
- Mas que porra! Onde está aquela merda de comprimido!?
Procurou por uns quinze minutos até que se conformou e resolveu voltar para a sua cama. Com a cabeça encostada no travesseiro olhou para o lado vazio da cama. Virou-se para alcançar um bilhete em cima do criado mudo. Releu o bilhete que havia encontrado sobre a cama ao acordar. Um vazio se fez em seu peito, sentiu-se desamparada. Mil pensamentos voaram na sua mente em um lapso de segundo. Deu um breve suspiro e deixou escapar uma lágrima.
Ainda sem forças para levantar, telefonou para a farmácia e pediu que entregassem o seu remédio. A ansiedade estava acabando com as poucas forças que restavam a Kelly.
Quando se preparava para colocar o telefone na base prensou em ligar para a sua mãe, discou os números.
-Alô
Silêncio.
-Alô. Kelly é você minha filha? Kelly!
Não respondeu, apenas desligou.
O orgulho emudeceu Kelly. Mesmo sabendo que sua mãe seria a única pessoa que poderia aliviar e confortar sua dor, lembrou dos péssimos episódios ocorridos na época em que vivia com a sua família, o que a fez recuar ao ouvir aquela cansada voz.
Precisava de qualquer coisa que a tirasse do buraco que ela mesma havia cavado, tão fundo que já não podia sair sem ajuda alguma. Lembrou-se do remédio.
-Será que foram buscar na China!?
Ligou novamente na farmácia e pediu para que levassem logo a sua “cura”. Enquanto esperava roia as unhas, alguns dedos até sangraram em suas pontas. Estava com pressa, mas um sentimento de medo a aterrorizava. O que seria? Nem ela sabia, apenas sentia.
Até o barulho dos carros que passavam na rua a incomodavam naquele momento, então resolveu fechar as janelas e as cortinas. Ligou o som para abafar o barulho de fora, colocou a música que mais gostava, que marcara sua adolescência.
Lembrou de Javier.
Ficou confusa, seus olhos enfurecidos se voltaram para a estante onde guardava as suas fotografias. Andou até lá e pegou um porta retrato onde havia uma foto sua com Javier. Arremessou na parede. Espatifou-se.
-Desgraçado!
Aquela música, a foto, o remédio, sua mãe e as lembranças rodando em sua cabeça estavam a enlouquecendo.
Gritou para desabafar. Mas não aliviou.
Correu por todo apartamento, gritando enquanto abria cada porta de quarto ou armário que encontrava pela frente. Talvez fosse isso que ela estivesse precisando: abrir as suas portas que foram trancadas um dia em sua cabeça.
A última porta que encontrou foi a da sacada. Abriu. O barulho dos carros passando lá embaixo, o movimento da cidade, pessoas sem rumo, as cores desbotadas dos painéis publicitários pareceram a ela naquele momento um caos muito maior do que o da sua vida. Sentiu-se um pouco melhor e deixou um leve sorriso irônico escapar.
Sentou-se sobre o parapeito da sacada deixando suas pernas ao vento. Não sentiu nenhuma vertigem mesmo sabendo que estava no décimo terceiro andar. Olhou para baixo e viu as pessoas que passavam na rua se aglomerando aos poucos em frente ao prédio onde morava.
Sorriu novamente, mas agora com empolgação, ao perceber que os pedestres pensavam que ela estava à beira do suicídio.
-Povo idiota. Agora vou dar o que eles estão querendo.
Kelly ficou de pé sobre o parapeito, andando de um extremo ao outro da sacada, como se imitasse um equilibrista de circo em uma corda bamba. Depois começou a dançar.
Não demorou muito para alguns marmanjos lá em baixo começarem um coro de “Tira! Tira!”.
Atendendo ao pedido do público, Kelly lançou aos ares a primeira peça de roupa: sua camisola. A multidão foi ao delírio e o coro cada vez ficava mais forte, pois mais pessoas iam chegando.
Com os seus fartos seios a mostra continuou seu show até que não lhe restasse ao menos uma folha de parreira para lhe cobrir a vergonha.
Alguns instantes depois aquelas pessoas enjoaram-se da brincadeira de Kelly, não estavam mais contentes em ver uma bela mulher nua dançar sensualmente no parapeito da sacada do décimo terceiro andar. Sadicamente pediram:
-Pula! Pula! Pula!
Já não se ouvia mais nada além dos berros da multidão que, naquele instante, ocupava toda a rua. Haviam pessoas em cima de carros e containers de entulho para assistir aquele bizarro espetáculo.
Completamente nua, Kelly parou de dançar sensualmente, estava disposta a divertir ainda mais a sua platéia. Ameaçou se jogar, dobrou seus joelhos e fingiu um impulso para o pulo. A multidão vibrou.
Uma onda de prazer percorreu o corpo de Kelly.
-Muito melhor que um orgasmo!
Gargalhava ao som dos gritos que exigiam a sua queda. Nem se lembrava qual fora a última vez que sentira tamanha felicidade. Sentia-se viva.
Repetiu o movimento anterior.
Na terceira vez em que fingiu se jogar, o vento, que movimentava o cabelo de Kelly, desequilibrou o seu corpo. Tentou reter o impulso que dera. Balançou os braços tentando agarrar em alguma coisa, mas não havia nada. Sentiu a adrenalina ao perceber que não conseguiria manter-se sobre o estreito parapeito, lutou com todas as suas forças para evitar a queda, mas em vão. A queda era inevitável.
Sua vida passou pela sua cabeça como em um filme. Lembrou-se de tudo e todos enquanto se entregava à queda. Lembrou-se de Javier, desistiu de lutar e se entregou.
Gritou por se sentir impotente, incapaz de preservar a sua vida, um último desabafo.
Kelly começou a cair quando bruscamente e milagrosamente algo fez cessar a queda.
Sentiu uma dor terrível na cabeça, mas era bom sentir aquela dor, pois estava viva. Estava pendurada pelos cabelos. Não conseguia acreditar: o seu remédio foi responsável pela sua vida intacta! Um jovem entregador da farmácia estava atrasado para a sua entrega, mas conseguiu chegar a tempo para evitar o pior.
A multidão via o espetáculo com um ar de frustração enquanto o entregador puxava Kelly de volta para a sacada. Ainda torciam para que lhe faltasse forças ou os cabelos cedessem, mas não aconteceu. Kelly foi resgatada sã e salva.
Kelly em choque abraçou aquele estranho herói que havia entrado em seu apartamento e salvo sua vida. Compulsivamente chorava apertando cada vez mais o abraço.
Ouviam-se vaias lá em baixo. A multidão insatisfeita promoveu um quebra-quebra geral na rua. Pedradas nas vidraças dos apartamentos visinhos, carros virados, placas de trânsito derrubadas, lojas saqueadas e outras obras de vandalismo foram o resultado final do show de desequilíbrio de Kelly. A balbúrdia durou até a chegada da polícia militar, que prendeu cerca de quinze arruaceiros.
Kelly também foi autuada, mas antes de ir para a delegacia foi levada pelos paramédicos para um hospital onde ficou em observação por um dia. O jovem entregador atenciosamente a acompanhou.
Quando os sedativos perderam o efeito e Kelly acordou no leito de hospital e viu um vulto de pé ao seu lado abriu um sorriso:
-Gio, é você? Gio?
Não era Gio.
Javier colocou dentro de um copo de água as flores que levara, acendeu o cigarro, tragou forte, soltou pelas ventas e saiu do quarto de hospital batendo a porta com força.